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Pesquisadores da Universidade de Berkeley descobriram que durante a fase de sonhos do sono, também conhecida como sono REM (movimento rápido dos olhos), nossa química do estresse se desliga e o cérebro processa as experiências emocionais e ameniza memórias difíceis.

Os resultados oferecem uma explicação convincente do porquê as pessoas com transtorno de stress pós-traumático (TEPT), tais como veteranos de guerra, têm dificuldade em se recuperar de experiências angustiantes e sofrem pesadelos recorrentes. Eles também oferecem pistas sobre por que sonhamos.

"A etapa de sonho no sono, com base em sua composição neuroquímica única, fornece-nos uma forma de terapia durante a noite, um bálsamo que remove as bordas afiadas de experiências emocionais do dia anterior", disse Matthew Walker, professor associado de psicologia e neurociência na Universidade de Berkeley e principal autor do estudo que será publicado em 23 de novembro, na revista Current Biology.

Com relação a pessoas com TEPT, Walker disse que esta terapia durante a noite pode não estar funcionando de forma eficaz, assim quando um “flashback é desencadeada por, digamos, um escapamento de carro, eles revivem toda a experiência visceral, mais uma vez, porque a emoção não foi devidamente arrancada da memória durante o sono.”

Os resultados oferecem algumas das primeiras idéias para a função emocional Movimento Rápido dos Olhos (REM), que normalmente ocupa 20 por cento das horas de sono de um ser humano saudável. Estudos anteriores do cérebro indicam que os padrões de sono são interrompidos em pessoas com transtornos do humor, tais como TEPT e depressão.

Enquanto os seres humanos passam um terço de suas vidas dormindo, não há consenso científico sobre a função do sono. No entanto, Walker e sua equipe de pesquisa desbloquearam muitos desses mistérios que ligam o sono ao aprendizado, memória e regulação do humor. O estudo mais recente mostra a importância do estado de sonho REM.  

"Durante o sono REM, as memórias estão sendo reativadas, colocadas em perspectiva e conectadas e integradas, mas em um estado em que os neuroquímicos de estresse estão beneficamente reprimidos", disse Els van der Helm, um estudante de doutorado em psicologia na Universidade de Berkeley e principal autor do estudo.

Trinta e cinco jovens adultos saudáveis participaram do estudo. Eles foram divididos em dois grupos, em que os membros visualizavam 150 imagens emocionais, duas vezes e com um intervalo de 12 horas, enquanto um scanner de ressonância magnética media sua atividade cerebral. Metade dos participantes viram as imagens na parte da manhã e novamente à noite, ficando acordados entre essas visualizações. A metade restante via as imagens a noite e novamente na manhã seguinte após uma noite inteira de sono.

Aqueles que dormiram entre as visualizações das imagens relataram uma diminuição significativa em sua reação emocional às imagens. Além disso, os exames de ressonância magnética mostraram uma dramática redução da reatividade na amígdala, uma parte do cérebro que processa as emoções, permitindo que o córtex cerebral "racional" pré-frontal recuperasse o controle das reações emocionais dos participantes.

Além disso, os pesquisadores registraram a atividade elétrica do cérebro dos participantes enquanto dormiam, usando eletroencefalograma. Eles descobriram que durante o sono de sonho REM, certos padrões de atividade elétrica diminuíram, mostrando que a redução dos níveis de estresse neuroquímicos no cérebro acalmaram as reações emocionais às experiências do dia anterior.

"Sabemos que durante o sono REM há uma diminuição acentuada dos níveis de norepinefrina, um produto químico do cérebro associado ao estresse", disse Walker. "Ao reprocessar experiências emocionais anteriores neste ambiente neuro-quimicamente seguro de norepinefrina baixa durante o sono REM, acordamos no dia seguinte, e essas experiências foram aliviadas em sua força emocional. Sentimo-nos melhor sobre elas, sentimos que podemos lidar. "

Walker disse que ele foi avisado sobre os possíveis efeitos benéficos do sono REM em pacientes com TEPT quando um médico do hospital americano de Veteranos de guerra em Seattle lhe falou sobre um remédio para pressão arterial que estava inadvertidamente prevenindo pesadelos recorrentes em pacientes com TEPT.

Acontece que o medicamento genérico para pressão arterial teve um efeito colateral de suprimir a norepinefrina no cérebro, criando assim um ambiente mais livre de estresse no cérebro durante o sono REM, reduzindo pesadelos e promovendo uma melhor qualidade do sono. Isto sugere uma ligação entre o TEPT e o sono REM, disse Walker.

"Este estudo pode ajudar a explicar os mistérios da razão pela qual estes medicamentos ajudam alguns pacientes com TEPT e seus sintomas, bem como o seu sono", disse Walker. "Também pode desbloquear novas maneiras de tratamento sobre o sono e doença mental."

Outros co-autores do estudo são os pesquisadores do sono da Universidade de Berkeley Justin Yao, Shubir Dutt, Vikram Rao e Jared Saletin.

ScienceDaily (Nov. 23, 2011).
Tradução: Bernadete Cordeiro
 

 


OAKLAND - O experimento foi projetado para monitorar o que acontece quando o cérebro humano absorve novas informações. O cientista-chefe, Bessel van der Kolk, presidente da Sociedade Internacional para Estudos do Estresse Traumático, quis verificar as diferenças entre cérebros cronicamente traumatizados e cérebros normais.

Ele supôs que o cérebro detém a chave para as raízes e o tratamento de traumas graves.


O que ele e dezenas de outros cientistas ao redor do mundo continuam descobrindo poderia ter conseqüências de longo alcance para milhões de americanos, especialmente em Oakland, onde milhares de pessoas, muitas delas crianças, estão regularmente expostos a níveis crônicos de estresse e trauma.


Esta ciência está quebrando barreiras em diversas áreas tais como a neurociência, mapeamento cerebral, meditação e psicoterapia.
 Sem contar o valor científico, os resultados poderiam percorrer um longo caminho na direção da compreensão e, tratamento de famílias e comunidades afetadas por assassinatos e violência, comunidades como a que John Jones deixou para trás quando foi morto há um ano em West Oakland.

Van der Kolk sabia que um cérebro normal faz duas coisas com novas informações.
 Ele gera um impulso como uma espécie de filtro, N½'200, uma "onda inibidora", que permite que o cérebro se concentre nas coisas mais importantes. Então ele cria um impulso P½'300 que permite ao cérebro aprender com a experiência. Ele logo descobriu que pessoas traumatizadas não geram o a onda inibidora N½'200, e nem geram uma boa qualidade de P½'300. 

"Este estudo mudou toda a minha compreensão a respeito do que é o trauma", disse van der Kolk.
 "Trauma já não era sobre algo que aconteceu há muito tempo, era sobre a impossibilidade de se comprometer plenamente com o presente. Nada de novo, estava chegando ao cérebro."

A ciência em torno do trauma crônico está evoluindo rapidamente e em novos caminhos. Mesmo enquanto os cientistas descobrem novas evidências sobre o que está acontecendo no cérebro de pessoas cronicamente traumatizadas, estão surgindo novas técnicas intrigantes para lidar com os efeitos. Os pesquisadores estão concentrando suas energias mais intensamente em crianças, nas quais o trauma precoce muitas vezes pode se tornar um obstáculo debilitantes, ao longo da vida; o tratamento precoce oferece a melhor chance de recuperação completa e eficaz.


"O trauma é a raiz de tudo nessas crianças", disse Debra Wesselmann, co-fundadora do Centro de Apego e Trauma de Nebraska.
 "Suas redes neurais estão cheias de trauma, elas têm muito pouco de informação adaptável em seus cérebros."
Grandes desafios
Cientistas e terapeutas acreditam agora que os efeitos a longo prazo de traumas na infância são mais profundos e preocupantes do que se pensava.

"Um achado consistente após o controle do tamanho corporal e tamanho da cabeça foi que as crianças traumatizadas têm cérebros menores, em relação às crianças que não tenha sido traumatizadas", disse Frank Putnam, diretor do Centro de Tratamento de Trauma de replicação do Hospital Infantil de Cincinnati.


Diversos estudos constataram que a substância branca, tecido do cérebro que faz conexões dentro da substância cinzenta rica em neurônios, está diminuída em crianças traumatizadas. Isso significa menos neurônios fazendo menos conexões - e fazer conexões é o que cria QIs mais altos.


Apenas o começo.


Um estudo Putnam de 2010 descobriu que crianças abusadas sexualmente apresentaram níveis de cortisol acima do normal, um hormônio que pode salvar vidas em situações de emergência, mas que destrói tecido cerebral se em grandes quantidades. Traumas repetidos causaram o excesso de secreção de cortisol, e uma posterior falha do cérebro e do corpo na drenagem do hormônio.


O trauma pode até afetar a capacidade do cérebro em saber onde ele está no espaço físico. Um estudo canadense descobriu que a posterior singularidade - uma parte do cérebro que confirma a sua existência física - não estava ativa em pessoas traumatizadas."Trauma é o resíduo do que essas experiências deixam em seu corpo", disse van der Kolk. "O Cérebros das pessoas muda por causa do trauma."


Os efeitos disto são conhecidos: comportamento anti-social, entorpecimento emocional, agressão, violência e dissociação física e mental – as marcas, em outras palavras, dos estados emocionais dos muitos jovens traumatizados de várias cidades como Oakland e Richmond.
O que a ciência está ajudando a decifrar agora, porém, é como isto funciona no cérebro. Experiências traumáticas, como tiroteios, estupros, roubos ou abuso emocional deixam uma marca na parte central do cérebro chamada córtex pré-frontal medial, o que ajuda a regular o nosso relacionamento com nós mesmos - auto-refletir e auto-observar, e estabelecer relações sociais com os outros.


O trauma também turva as conexões entre os lados direito e esquerdo do cérebro, afetando a fala e as habilidades cognitivas.
 "Essas coisas mudam o cérebro, que se torna cronicamente medroso, ou a não teme nada, ou acha que a melhor coisa a fazer antes que alguém te machuque é machucá-los", disse van der Kolk. "É uma má notícia."

Chances de Cura


Um grande problema que os cientistas estão apenas começando a lidar é como muitas vezes as vítimas de trauma crônico são incapazes de escapar do ambiente traumático ao redor deles.
 Mas estudos recentes sugerem que pode haver esperança.

Técnicas como a EMDR, neuro-feedback e até mesmo atenção e meditação são eficazes como ferramentas terapêuticas para pessoas presas em ambientes traumáticos.
  A EMDR existe a cerca de uma década, mas só agora está ganhando força nos tratamento complexo de transtorno de estresse pós-traumático. Estudos recentes em pessoas que receberam tratamento com EMDR mostram uma taxa de melhora de 91%.

A terapia trabalha através do acesso à  memórias por meio de estimulação bilateral dos dois hemisférios cerebrais e, em seguida reprocessamento dos mesmos para tira-los da carga emocional do trauma.
 Francine Shapiro, que foi pioneira no uso de EMDR, disse que há indícios de que vítimas de trauma construiram "resiliência", através do tratamento.

Em um estudo, refugiados palestinos traumatizados que receberam a terapia EMDR foram interrompidos por outro trauma. "A expectativa era  que eles teriam que começar de novo", afirmou Shapiro. "Mas o que aconteceu foi resiliência". O mesmo efeito de resiliência ocorreu em um estudo de 2009 em contadores de um banco alemão que tinha sido assaltados várias vezes com uma arma.


Outras ferramentas também animaram os neurocientistas recentemente.
 Van der Kolk teve resultados positivos entre as pessoas traumatizadas utilizando neuro-feedback, quando os pacientes são "realimentados" com imagens de sua atividade cerebral que correspondem aos seus estados mentais. Com treinamento, eles podem aprender como acessar as ondas teta profundas do cérebro que correspondem aos estados de tranqüilidade emocional e pensamento racional.

Van der Kolk is working with about 50 children at the Trauma Research Center in Boston. He said he believes that treating one traumatized person in a traumatic environment is akin to creating "an island of stability" around which others can congregate and from whom they may learn to cope better. "I think the 50 kids we have are no longer the future rapists and killers of America," he said at a symposium in Los Angeles earlier this month on healing trauma. 


Van der Kolk está trabalhando com cerca de 50 crianças no Centro de Pesquisa de Trauma, em Boston.
 Ele disse que acredita que o tratamento de uma pessoa traumatizada em um ambiente traumático é similar a criação de "uma ilha de estabilidade" em torno da qual outros podem se reunir e pela qual eles possam aprender a lidar melhor. "Eu acho que as 50 crianças que nós temos não são mais os futuros estupradores e assassinos da América", disse ele em um simpósio em Los Angeles no início deste mês na cura do trauma.

Por que é importante


A mais nova área de estudo, também pode ser uma das mais promissoras.
 Os neurocientistas, médicos e pesquisadores estão cada vez mais voltando sua atenção para uma área que budistas e filósofos têm estudado por mais de dois milênios: a plena consciência. O número de estudos de casos científicos de como a atenção pode ajudar vítimas de traumas tem crescido exponencialmente nos últimos anos.

Uma razão é que a atenção está cada vez mais sendo associada aos tipos de experiências positivas sociais e emocionais que as vítimas de trauma, muitas vezes já não sentem, o que os médicos descrevem como entorpecimento emocional.


Ruth Lanius, uma professora adjunta do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Western Ontario, tem estudado a consciência emocional e atenção no Trasntorno de Estresse Pós Traumático (TEPT) por vários anos, e encontrou correlação direta entre consciência e atividade cerebral.
 Usando exames de ressonância magnética, descobriu que quanto mais atentos seus pacientes eram,  maior ativação apareceu em uma área do cérebro chamada córtex pré-frontal dorsomedial - uma região do cérebro envolvida na consciência reflexiva.

Há uma boa razão para todo esse interesse nas ciências do cérebro e sua influência sobre a jovens traumatizados.
 Por um lado, é relativamente barato. "Sabemos mais sobre como o trauma afeta crianças do que sabemos sobre a esquizofrenia, ou mesmo o ranstorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) , ou mesmo transtorno bipolar", disse Putnam. "É uma área onde a recompensa dos montantes menores tem sido bastante dramática".

Em segundo lugar, surge um consenso entre muitos terapeutas de muitas que crianças traumatizadas estão sendo medicadas em excesso.
 Só no ano passado, as crianças americanas consumiram 16,3 bilhões de dólares em medicamentos anti-psicóticos.Pesquisadores como van der Kolk e outros dizem que esses medicamentos estão destruindo a capacidade das crianças de se enquadrar no mundo.

"Aposto que metade das crianças que tomam esses medicamentos nunca serão membros funcionais da sociedade", disse ele.
 "É uma catástrofe nacional".

Scientists seek to treat chronically traumatized brains
 
By Scott Johnson
Oakland Tribune
Posted: 03/30/2011 12:00:00 AM PDT

Tradução: Bernadete Cordeiro

...ajudando as pessoas a vencer os desafios da vida...